Equipe Psicossocial do Mangues da Amazônia demarca o mês do Orgulho LGBTQIA+ com homenagem a Rubens Baldez

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Em junho é comemorado mundialmente o Mês do Orgulho LGBTQIA+. Vocês sabem o que significa esta sigla? Ela se transformou ao longo do tempo e hoje reúne uma diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero:

L: lésbicas; G: gays e B: bissexuais são orientações sexuais. Lésbicas são mulheres (cisgênero ou transgêneros) que se sentem atraídas por outras mulheres, na mesma perspectiva, gays são homens (cisgênero ou transgênero) que se sentem atraídos por homens. As pessoas bissexuais se relacionam afetiva e sexualmente por homens e mulheres (cisgênero, transgênero e também bissexuais).

A letra T, se refere às pessoas transsexuais ou travestis, este conceito está relacionado a identidade de gênero ou seja, como a pessoa se identifica, não está relacionado à sexualidade. Pessoas transsexuais não se identificam com o seu gênero biológico, masculino ou feminino. Não há diferença entre uma mulher trans e uma travesti, a não ser o termo que cada uma prefere usar para se apresentar, as travestis, são mulheres trans que preferem ser chamadas dessa maneira por motivos políticos e resistência.

Q: queer é um termo que traduzido do inglês quer dizer “estranho”, utilizado por pessoas que se identificam com um terceiro gênero, com caracteristicas femininas e masculinas. Não tem identidade de gênero nem orientação sexual definida, foge da heteronormatividade.

I: intersexo se refere as pessoas que podem nascer com genitais que correspondem a um sexo, mas tem o sistema reprodutivo e os hormônios de outro.

A: assexuais, são pessoas que não sentem atração sexual por ninguém, embora possam desenvolver atração afetiva.

+: simboliza as demais variações de orientação sexual e identidade de gênero que não estão representadas nas primeiras letras.

O mês de junho foi escolhido porque marca a rebelião de Stonewall em 1969, que deu início ao dia do #Orgulho e é celebrado de várias maneiras diferentes. De acordo com a história, a Rebelião de Stonewall foi uma série de manifestações violentas e espontâneas de membros da comunidade LGBT contra uma invasão da polícia de Nova Iorque, que aconteceu nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn.

LGBTQFOBIA HOJE:

Práticas criminosas tem sido ainda mais invisibilizada nesse contexto de pandemia devido a subnotificação dos casos que se agravaram. As ofensas destinadas a essa população são naturalizadas culturalmente, portanto, devem ser combatidas.

Motivados pelo preconceito, a homofobia acarreta diversas formas de violência: a simbólica, psicológica, sexual, física e muitas vezes resulta na morte. No ano de 2019, o supremo Tribunal Federal enquadrou homofobia e transfobia como crime de racismo (Lei 7.716/1989), de acordo com a decisão, “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito” em razão da orientação sexual da pessoa pode ser considerado crime, com pena de um a três anos de prisão, além de multa.

Apesar da legislação, dados divulgados em maio de 2021 pela Acontece Arte e Política LGBTI+ e Grupo Gay da Bahia, foram registrados 237 mortes violentas de lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais, em 2020 no Brasil, sendo 224 homicídios (94,5%) e 13 suicídios (5,5%).

O levantamento aponta que foram 161 mortes de travestis e mulheres transsexuais (70%), 51 mortes de gays (22%), 10 mortes de lésbicas (5%), 3 mortes de homens transsexuais (1%), 3 mortes de bissexuais (1%), e 2 mortes de homens heterossexuais confundidos com gays (0,4%) ano passado.

No que se refere a cor, identificou-se que 74 pretos e pardos (54%) e 62 brancos (46%) entre os que morreram. Quanto à causa da morte, predomina as mortes violentas com arma de fogo (42,3%), seguido de armas brancas (23%) e espancamento (9,1%).

O Nordeste ocupa o primeiro lugar entre as regiões com maiores índices de mortes da população LGBTI+, com 113 casos em 20202, seguido do Sudeste com 66, regiões Norte e Sul com 20 morte cada e Centro Oeste, com 18 mortes de acordo com o relatório houve uma redução das mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ comparado ao ano de 2019, uma queda de 28%, todavia pode estar relacionado com as subnotificações e os efeitos da pandemia que “obrigou o isolamento ainda mais prejudicial a essa população que já era impactada pela falta de sociabilidades, referências e espaços”, como expresso no documento.

A violência da LGBTQfobia ainda hoje é uma realidade, esta que nos toca intimamente e nos faz pensar, que mesmo com toda evolução, com a modernidade, com o passar dos anos, da luta LGBTQIA+, a gente se pergunta o porquê de ocorrer tanta violência, AINDA. Como é que nos dias de hoje é precisamos repetir um discurso de orgulho LGBTQIA+? É preciso mesmo criar esse rótulo e, ainda por cima, levantar uma bandeira? Não podemos ser apenas seres humanos, independentemente de suas orientações sexuais? Essas dúvidas surgem toda vez que pessoas LGBTQIA+ manifestam seu orgulho, seja nas ruas ou na internet.

Tem gente até que acredita que também deve ser criado o Dia do Orgulho Hétero, como resposta. Há quem defenda que exista uma ditadura gay, que há uma tentativa de impor “ideologia”. É o que se falava, por exemplo, quando tentaram criar uma campanha educacional contra o bullying às crianças gays nas escolas. A criação de um suposto “kit gay”, entre outras fakes news, é um dos fatores da eleição do atual Presidente (PASTORELLO, 2020).

A verdade é que o Orgulho LGBTQIA+ tem sua importância por conta de uma história de lutas e de preconceitos. Devido ao imaginário homofóbico, o que diverge da cultura heteronormativa se liga a algo negativo, promíscuo ou sujo, que fere a moralidade. Falácias como que “gays vão para o inferno, precisam ser curados”, ainda são amplamente vociferadas e naturalizadas. 

Sharinna Maia, mulher lésbica e professora afirma sobre a frase:” quem é o homem da relação?” que na verdade, a intenção é não ter homem nem um em seu relacionamento com outra mulher. Sharinna foi candidata a vereadora do Município de Tracuateua nas últimas eleições, causando verdadeiro impacto nas pessoas que vivem na cidade. Além de ser uma mulher jovem inserida em um contexto majoritariamente masculino, habituados á uma velha política, construiu uma candidatura LGBT, com discursos feministas, pela vida das mulheres, entre outras pautas da esquerda, a professora e sua companheira foram alvos de ataques, assim como ameaças a própria integridade física. Sem contar em todas as ofensas e danos psicológicos e morais que foram sofridos pela ex-candidata, em um município interiorano e conservador, até mesmo no momento de registrar a ocorrência foram vítimas de violência moral, na tentativa de garantir seus direitos.

No entanto sua postura e coragem é o que nos serve de referência e fé em uma sociedade cada mais representativa, e a esperança que temos muitas de nós lutando e resistindo publicamente.

Sharina Maia, professora e ex candidata à vereadora pelo Município de Tracuateua-PA

Maxmiano, professor do município de Tracuateua, ressalta a importância de educar as crianças para o respeito à diversidade. Como pai de uma menina de sete anos, o professor sempre buscou explicitar a naturalidade de relações e identidades LGBT’s. Em seu discurso ele também faz referência a preconceitos enraizados e reproduzidos dentro da própria comunidade LGBTQIA+.

Luiz Maxmiano (Max) professor do município de Tracuateua e pai da pequena Sofia (foto)

A violência começa no discurso!

A naturalização passa pela nossa linguagem, e a linguagem é aquilo que faz a gente aprender tudo desde que a gente se entende por gente, não é mesmo? Nesse sentido, o “Nem te conto” convidou a Sharina e o Max para compartilharem conosco um pouco de suas vivências como pessoas LGBTQIA+ ligadas ao município de Tracuateua, com o objetivo de desconstruir falas que guardam violências veladas, e que de forma sutil e rotineira se enraízam no imaginário social, e na cultura amazônida, paraense.

Confira os vídeos-depoimento de Sharina e Max publicados em nosso Instagram clicando aqui

Homenagem à Rubens Ferreira Baldez (Rubica)

Enquanto não houver a mudança no imaginário social, as micro violências vão se perpetuar. Enquanto a linguagem propagar ideias homofóbicas, os assassinatos de LGBTQIA+ continuarão acontecendo, de forma que estão justificados pelo conservadorismo e fundamentalismo. Só a educação e reeducação para a igualdade vai poder tirar a humanidade dessa cultura de intolerância e aniquilação do outro.

Nos vídeos, nossa convidada e convidado nos falam sobre as suas vivências, suas histórias, seus direitos de (re)xistir, assim como na convivência em comunidades tradicionais, em municípios fortemente influenciados pela religião, e suas peculiaridades geográficas, culturais e sociais.

Intensificar o debate sobre o orgulho LGBTQIA+ é necessário, pois pessoas LGBTQIA+ sofrem violência, discriminação dentro das próprias famílias, sofrem nas escolas, na infância, são ainda odiados na internet, perseguidos politicamente, sofrem boicote publicitário, tem pouca ou nem uma representatividade.

Aqui queremos deixar a nossa total indignação e ao mesmo tempo solidariedade à família de Rubens Ferreira Baldez, carinhosamente conhecido como Rubica. Ele era filho do pescador Raimundo Lima Baldez e da dona Ana Lúcia Ferreira, moradores da comunidade do Perimirim, zona rural de Augusto Corrêa.

Rubica trabalhou como produtor cultural, na organização de festividades, concursos e da famosa Regata De Pescadores Artesanais da comunidade. O jovem foi vítima de homofobia e brutalmente assassinado por esse motivo aos 31 anos de idade. Apenas um dos autores do crime foi preso e aguarda julgamento, os demais seguem foragidos da justiça.

Encerramos esse artigo com um texto escrito pelo primo de Rubens, Amós Amorim, e fazemos desta também a nossa Homenagem. #RUBICAPRESENTE

“Sou um rapaz de sorriso fácil, pois tenho um coração enorme.

Me considero um vencedor pois já venci tantas dificuldades na vida.

Concluí meus estudos com muito esforço tendo que morar em casa de parentes na cidade para conseguir ajudar minha família, que amo tanto.

Eu amo o meu lugar, sempre me achei seguro aqui, meu Perimirim, minhas raízes sempre foram aqui, e eu jamais imaginaria que um dia o que eu mais temia iria acontecer comigo, o crime de homofobia.

Foi aqui no meu lugar que pessoas más acabaram com meus sonhos, com meus planos, com a minha vida.

Logo eu que nunca consegui fazer mal a ninguém.

Me emboscaram, me torturaram, me espancaram, me MATARAM, sem se importar com quem ia sofrer com minha morte, sem lembrar que eu tinha um sorriso, um sorriso que trazia junto uma alegria, uma voz, uma lágrima.

Eu estava com medo, triste, assustado e derrotado, pois seria mais uma vítima, mais uma estatística dos mortos sem voz, sem justiça.

Eu jamais imaginaria que iria partir assim, no meu lugar, onde me sentia protegido, de forma tão cruel em uma geleira escura, onde planejaram minha morte,  por motivo que nunca saberei.

A Justiça não vai trazer minha vida de volta,  mas vai dar esperanças a milhares de homossexuais que passam por tudo que passei.

Que a minha história seja exemplo, não existe mais lugar seguro, a maldade dorme ao lado e a gente nem percebe.

Parti daqui, parti repentinamente, não me despedi, nem sorri pra ninguém. 

Eu era o Rubens, fui morto na madrugada do dia 29/11/2020, e eu sou mais um que infelizmente não vai sorrir mais por causa da Homofobia”

(AMÓS AMORIM)

*Este artigo foi escrito por Dyandra Jamylle e Adiele Lopes, profissionais que compõem a equipe Psicossocial do projeto Mangues da Amazônia.

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